Recurso para o seu círculo

O
acompanhamento.

Acompanhar é sentar uma hora com a mulher que vai trazer o caso, antes da sessão, e ajudá-la a chegar ao que de verdade pesa nela — para que ela não chegue ao círculo e descubra isso diante de todas.

São duas mulheres e dois trabalhos diferentes. Esta página tem os dois, separados: primeiro o que faz quem vai apresentar, depois o que faz quem acompanha.

E há duas maneiras de acompanhar: a preparada, com encontro marcado, e a de urgência, feita ao vivo diante do círculo. Quase tudo é igual nas duas; o que muda está no fim desta página.

Nenhuma é opcional. Um caso sem acompanhamento consome o bloco inteiro contando a história — e a história não é o caso.

O que é o acompanhamento

É uma conversa de uma hora, entre duas, antes da sessão. Uma vai trazer um caso ao círculo; a outra escuta para ajudá-la a encontrar a dificuldade de fundo. É só isso, e é mais difícil do que parece, porque a única coisa a fazer é perguntar e calar.

Em outros grupos entre pares isto se chama coaching. A MQHD chama de acompanhamento, e não é troca de rótulo: coach carrega a ideia de alguém que sabe mais e te leva a um resultado. Aqui não há ninguém que saiba mais. Há uma mulher que caminha ao lado de outra enquanto esta encontra o que é dela.

Quatro coisas que o acompanhamento não é

Não é terapia

Não se trabalha o passado nem se diagnostica nada. Se aparecer algo que precise de ajuda profissional, nomeia-se com cuidado e oferece-se um contato — não se acompanha.

Não é assessoria

Nem financeira, nem jurídica, nem de negócio. Quem acompanha não revisa números nem opina sobre a decisão, mesmo que entenda do assunto.

Não é mentoria

Não há uma que já resolveu ensinando quem está dentro. Quem já resolveu não pode acompanhar quem está dentro.

Não é ensaio

Não se pratica como ela vai contar nem se escreve o roteiro dela. O que ela levar para a sala tem de soar como ela.

Dois papéis, uma hora

Quem apresenta

Preenche as duas folhas antes do encontro, sozinha e à mão. Chega com elas e com disposição para que lhe perguntem o incômodo. Depois decide o que leva para a sala.

A acompanhante

Chega sem nada escrito e sem opinião formada. Pergunta, escuta, devolve. Ao terminar escreve uma introdução de quatro partes e a lê na sessão.

A linha que não se cruza

Quem acompanha não resolve, não aconselha e não conta o que é dela.

Quem apresenta · antes do encontro

Preenchem-se duas folhas, sozinha e à mão. Estão na cartilha. A primeira sai sem esforço; a segunda é a que custa, e é a que serve.

Folha 1 · Os fatos e o que dói

  1. 01
    Em uma frase

    O que eu quero trazer para o círculo?

  2. 02
    Os fatos, sem interpretação

    O que aconteceu, quando, com quem?

  3. 03
    O mais difícil

    O que é o mais difícil disto para mim?

  4. 04
    Onde eu travei

    Onde deixei de conseguir me mexer.

Folha 2 · O que me cabe olhar

  1. 01
    A minha parte

    Como as minhas próprias decisões podem estar sustentando esta situação?

  2. 02
    O que eu sinto

    Com a roda das emoções ao lado, para chegar à palavra exata.

  3. 03
    O que eu temo

    O que eu temo que aconteça se nada mudar?

  4. 04
    O que seria isto dar certo

    Dito em concreto, não em desejo.

  5. 05
    O que eu preciso hoje do grupo

    Que me escutem, que me perguntem, ou que me contem a experiência delas. São três coisas diferentes e vale a pena pedir uma.

Se ao terminar a segunda folha você não ficar um pouco incomodada, ainda não chegou ao fundo.

E antes de preenchê-las, confira que seja um caso

Que mexa com você

Um assunto que tira o seu sono, não um sobre o qual você tem curiosidade.

Que não esteja resolvido

Se você já decidiu e vem contar, isso é uma história. O círculo trabalha o que segue em aberto.

Se falhar uma das duas

É um tema, não um caso. Vai para o espaço aberto, que existe para isso.

Quem apresenta · durante o encontro

Você chega com as duas folhas preenchidas e com uma só disposição: deixar que te perguntem o que você não se perguntou. Você vai se ouvir dizendo coisas que não tinha escrito — é exatamente para isso que serve a hora.

E uma que surpreende: você decide o que se conta. A acompanhante escreve a introdução, mas lê para você antes. Se algo nessa frase te expõe mais do que você quer, muda-se ali mesmo — não na sala.

A acompanhante · o que se vê e o que pesa

O que ela traz escrito é, quase sempre, a história: o que aconteceu, quando, com quem, o que cada um disse. Isso se conta fácil e ocupa a hora inteira se você deixar.

Por baixo há outra coisa, e é essa que o círculo consegue trabalhar. O seu trabalho é a passagem de uma camada para a outra. Se a hora terminar na primeira, o caso chega ao círculo como uma anedota e o bloco não rende.

Duas camadas, e só uma se conta sozinha

A história · o que se vê

  • O que aconteceu e quando
  • Quem disse o quê
  • Quanto era, quanto sobrou
  • Que passos ela está considerando

A dificuldade · o que pesa

  • O que ela sente, com todas as palavras dela
  • Onde ela sente no corpo
  • O que ela teme que aconteça
  • O que ela precisa e não pediu
  • O que ela acredita sobre dinheiro que a mantém ali
  • Que valor dela está em jogo
  • O que a acende: a palavra ou o gesto que faz tudo subir de uma vez
  • A parte dela: que decisão sua mantém isto

A acompanhante · o guia de perguntas

Não é preciso fazer todas nem em ordem. São um repertório para quando a conversa fica em cima. Todas são abertas: nenhuma se responde com sim ou não.

Para entrar

  1. 01
    «O que você está pensando?»

    A mais neutra de todas, e por isso a primeira. Se você começa perguntando o que ela sente, muitas vezes ela fecha: ainda é cedo. Esta não pede nada dela.

  2. 02
    «O que mais pesa para você nisso?»

    Costuma ser a primeira que desce da história para o fundo.

  3. 03
    «Me conta mais sobre isso.»

    Não é pergunta e é das que mais rendem. Diz-se e cala-se.

  4. 04
    «Me ajuda a entender.»

    Serve quando algo não fecha, sem apontar que não fecha.

Para chegar ao sentimento

  1. 01
    «O que você sente quando conta isso?»

    Pergunta-se mais de uma vez, em momentos diferentes da hora. A resposta muda.

  2. 02
    «Onde você sente isso?»

    Às vezes o corpo responde antes das palavras.

  3. 03
    «O que de tudo isso tira o seu sono?»

    Obriga a escolher, e escolher é o que foca.

  4. 04
    «Se isto fosse uma imagem, qual seria?»

    Uma metáfora, sem explicar e sem justificar. É a que mais rápido a tira dos fatos, e o que ela disser aqui se anota tal e qual: costuma valer mais do que vinte minutos de dados.

Para encontrar a dificuldade de fundo

  1. 01
    «Qual é a dificuldade de verdade aqui?»

    Direta. Muitas vezes ela já sabe e ninguém tinha perguntado.

  2. 02
    «Que pergunta você espera responder para si mesma?»

    Transforma o caso numa pergunta, que é o que o círculo precisa.

  3. 03
    «De tudo o que você me contou, o que mais te preocupa?»

    Faz-se no fim, quando já está tudo na mesa.

  4. 04
    «Que parte disto depende de você?»

    A mais incômoda e a que mais muda o caso.

Para olhar adiante

  1. 01
    «O que você quer?»

    Quatro palavras. Responde-se com dificuldade e por isso serve.

  2. 02
    «Se isto desse certo, como seria?»

    Em concreto: o que estaria diferente numa terça-feira qualquer.

  3. 03
    «E o que significaria se desse errado?»

    A contrária, e desce mais rápido. «O que eu temo» fica no sentimento; esta obriga a nomear a consequência concreta.

  4. 04
    «E para quem está à sua volta?»

    Soma-se às duas anteriores. Quase sempre revela quem ela está protegendo — e em dinheiro isso costuma ser metade do caso.

  5. 05
    «Que crença você teria de soltar para conseguir?»

    Algo que ela dá como certo sobre dinheiro. Quase sempre é uma frase aprendida em casa.

E uma que não se faz: «por quê?», seco. É a mais tentadora e a que cai pior — entre pares soa a cobrança, e ela passa de contar a se defender. «Me conta mais» consegue o mesmo sem tirá-la do lugar.

A acompanhante · como se escuta

Quatro coisas que quem acompanha faz

Calar

Escute mais do que fala. O silêncio depois de uma resposta é o que traz a segunda resposta, que quase sempre é a boa.

Devolver as palavras dela

Repita o que ouviu, com os termos dela e sem interpretar. Ela se ouve de fora e corrige.

Notar aonde ela volta

Se a conversa voltar três vezes ao mesmo ponto, o caso está ali — mesmo que ela diga que não.

Guardar as metáforas

Quando ela diz «é como carregar uma mala que não é minha», isso vale mais do que vinte minutos de fatos. Anota-se tal e qual.

E quatro que não faz

Não resolver

Mesmo que você veja a saída clarinha. Se você entrega, ela para de procurar e o bloco do círculo fica sem matéria.

Não contar o que é seu

A preparação não é uma conversa entre duas: é uma escuta. A sua experiência vem depois, no círculo, como a de todas.

Não interrogar

Se ela não quer ir a um lugar, não se insiste. Anota-se e segue.

Não julgar a decisão

Nem com a cara. Você está ali para que ela chegue ao fundo, não para avaliá-la.

A acompanhante · a introdução, em quatro partes

Ao terminar a hora, você escreve a introdução. É a peça que decide sobre o que o círculo vai falar, e é lida em voz alta quando chega o momento de compartilhar experiências. Está na cartilha, na sua folha.

O que você escreve

  1. 01
    O núcleo, numa só frase

    O que ela veio explorar. Com as palavras dela, não com as suas.

  2. 02
    A dificuldade que você escutou por baixo

    A que ela nomeou no fim, não a que trazia escrita no começo.

  3. 03
    Os sentimentos que você escutou

    Todos, não o mais confortável. Costumam ser dois ou três que se contradizem.

  4. 04
    A frase com que o grupo abre

    A que faz as outras procurarem na própria vida.

O formato da frase é fixo: «Pense num momento em que você se sentiu [o sentimento mais forte dela] porque [uma descrição geral da situação, sem os detalhes dela]

A frase, bem e mal escrita

Assim sim

  • «Pense num momento em que você se sentiu presa porque uma decisão de dinheiro dependia de outra pessoa.»
  • «Pense num momento em que você se sentiu envergonhada porque não entendia algo que devia saber.»

Assim não

  • «Pense em quando você emprestou para um irmão e ele não pagou.» — nomeia o caso: o grupo vai falar de irmãos
  • «Pense num problema com um crédito de oitenta mil.» — o valor e o produto sequestram a conversa

O teste: tire da frase tudo o que identifique o caso. Se ela continuar de pé, está bem escrita. Se cair, ainda nomeia os fatos e não o sentimento.

E antes de lê-la na sessão, você lê para ela. O caso é dela: se a frase a expõe mais do que ela quer, muda-se entre as duas.

O que acontece se a introdução sair errada

Se nomear os fatos

O círculo conta histórias parecidas e ela escuta oito anedotas que não lhe servem.

Se nomear o sentimento errado

As outras procuram na gaveta errada da própria vida.

Se for genérica demais

«Um momento em que você se sentiu mal» não abre nada para ninguém.

É o erro mais fácil de cometer e o mais caro: perde-se o bloco inteiro e não há como recuperá-lo dentro da sessão.

Dois acompanhamentos, e não se fazem igual

O que se acabou de descrever é o preparado: há um encontro antes, há duas folhas preenchidas e há uma introdução escrita. É o do caso preparado, o bloco longo da sessão.

Mas há outro. Quando acontece com alguma coisa que não pode esperar o mês seguinte, o círculo trabalha no mesmo dia, no espaço aberto. Ali não houve encontro, nem folhas, nem tempo de preparar nada. O acompanhamento é feito ao vivo, diante de todas.

Em que se diferenciam

O preparado

  • Um encontro uma ou duas semanas antes, em privado.
  • Ela chega com as duas folhas preenchidas.
  • A acompanhante escreve uma introdução e a lê ao abrir o bloco.
  • Ela nomeia a dificuldade de fundo na fase 2, e o grupo pergunta sobre isso.
  • Sabe-se desde a sessão anterior quem apresenta e quem acompanha.
  • Vai no bloco do caso: cerca de uma hora.

O de urgência

  • Não há encontro. Acontece na sessão, no mesmo dia.
  • Não há folhas. Não houve tempo de preenchê-las.
  • Não há introdução, porque o grupo acabou de ouvir tudo.
  • A dificuldade se encontra ao vivo: a conversa substitui as fases 2 e 3.
  • Quem acompanha decidem todas juntas, ali mesmo.
  • Vai no espaço aberto: o que sobrar da sessão.

O resto é igual. As duas camadas, o guia de perguntas, as quatro coisas que se fazem e as quatro que não: tudo desta página serve para os dois. O que muda é que no de urgência é preciso fazer a quente e com o grupo olhando.

O acompanhamento ao vivo

Quando alguma pede o espaço porque acabou de acontecer algo, o grupo já ouviu o essencial: disse ao pedir, ou saiu em O que pesa. O que falta é o de sempre — descer da história para a dificuldade — só que sem a hora prévia. É preciso fazer ali.

Como se faz

  1. 01
    Escolhe-se quem acompanha

    Decidem todas, na hora. Não há nada previsto e não precisa ser a guia — ao contrário: convém que ela fique livre para sustentar a sessão.

  2. 02
    Duas cadeiras, de frente

    As duas sentam olhando uma para a outra, não para o grupo. A postura não é enfeite: é o que torna possível o que vem depois.

  3. 03
    Falam só entre elas

    Como se as outras não existissem. Não se explica nada ao grupo, não se olha para ele, não se fala com ele. É uma conversa de duas que as outras alcançam a ouvir.

  4. 04
    O círculo não intervém

    Não pergunta, não concorda em voz alta, não completa frases, não comenta. Escuta e pronto.

  5. 05
    Ela nomeia a dificuldade de fundo

    Igual ao preparado: diz ela, em voz alta, quando chega.

  6. 06
    Um minuto de silêncio

    A guia anuncia e conta. Aqui não há frase para ler, mas o minuto acontece igual: é onde cada uma procura na própria vida em vez de contar a primeira coisa que lhe ocorre.

  7. 07
    E aí entra o círculo

    Cada uma compartilha a sua — relevante ou ressonante — e ela diz o que leva. Daqui em diante é idêntico ao caso preparado.

Por que de frente e só entre elas

Sem a hora prévia, o trabalho tem de ser feito ali

E esse trabalho —perguntar o incômodo, esperar em silêncio, devolver as palavras dela— só funciona entre duas. É o que se teria feito em privado, feito à vista.

Oito perguntando é um interrogatório

Se o grupo entra, ela para de procurar e começa a se defender. Com uma só interlocutora ela consegue pensar em voz alta sem ficar exposta.

Olhar-se muda o que se diz

Sentada de frente para uma só pessoa fala-se diferente de quando se fala para uma sala. A cadeira é que produz a conversa.

E por isso não há introdução

A introdução existe para contar ao grupo o que aconteceu no encontro privado. Aqui o grupo esteve presente: já sabe o que procurar na própria vida.

O que faz quem olha

Nada. E é mais difícil do que falar.

Para o círculo isto é o mais incômodo do método: ouvir uma conversa difícil sem poder entrar. Convém dizer isso antes de começar, em voz alta, para que ninguém entenda que foi deixada de fora. É o mesmo silêncio da fase 1 do caso preparado, só que mais longo.

O que o círculo pode fazer enquanto escuta

Preencher «O que eu vou compartilhar»

A folha do verso de Meus três eixos. É exatamente para isto: anotar as palavras dela, onde eu ressoo, e o que vou contar quando for a minha vez.

Não preparar a resposta

Anotar não é ensaiar. Se você passa a conversa montando o que vai dizer, parou de escutá-la.

E depois, na sessão

No preparado, o acompanhamento termina quando o bloco começa: quem apresenta conta, ela mesma nomeia a dificuldade de fundo, o círculo pergunta sobre essa dificuldade, a acompanhante lê a frase dela, vem o minuto de silêncio e cada uma compartilha a sua. As cinco fases, o que o círculo faz e o que o quebra estão em o caso preparado.

No de urgência o acompanhamento é o bloco: não há um antes e um depois, a conversa acontece à vista e daí o círculo entra direto em compartilhar.

Nos dois casos, quando o círculo começa a compartilhar a acompanhante não tem nenhum papel especial: já fez o dela. Participa como mais uma, e conta a experiência dela igual às outras.

De onde vem

O formato do caso entre pares e a sua regra de compartilhar experiência em vez de aconselhar são atribuídos a «Jiggs» Davis e Fred Chaney, que em 1975 deram forma ao fórum da YPO. A maneira de escutar descrita aqui —devolver as palavras de quem fala, sem interpretar, e não resolver por ela— é o reflexo de Carl Rogers e da sua terapia centrada na pessoa, dos anos quarenta; daí sai também o princípio que a MQHD põe no seu terceiro pilar: a capacidade de se entender está em quem fala, não em quem escuta. As perguntas abertas e os reflexos como técnica de conversa estão sistematizados na entrevista motivacional de Miller e Rollnick. O nome «acompanhamento», o guia de perguntas, os exemplos e o teste da frase são da MQHD.