O bloco profundo da sessão
O caso
preparado.
Uma mulher traz uma situação viva e o círculo inteiro trabalha nela. É a única hora do mês em que o grupo se dedica por completo a uma só pessoa.
Não se improvisa: combina-se uma sessão antes e prepara-se com uma acompanhante. Um caso que chega sem preparo consome o bloco inteiro contando a história, e não sobra tempo para o resto.
Aqui estão os três papéis — quem apresenta, a acompanhante e o círculo — com o que cabe a cada uma, antes e durante.
A regra que distingue isto de todo o resto
O círculo compartilha experiência, não conselho.
Antes · quem apresenta
Preenchem-se duas folhas, sozinha e à mão. Estão na cartilha da participante. A segunda é a que custa.
Os fatos e o que dói
- 01Em uma frase
O que eu quero trazer para o círculo?
- 02Os fatos, sem interpretação
O que aconteceu, quando, com quem?
- 03O mais difícil
O que é o mais difícil disto para mim?
- 04Onde eu travei
Não o que eu deveria fazer — onde deixei de conseguir me mexer.
O que me cabe olhar
- 01A minha parte
Como as minhas próprias decisões podem estar sustentando esta situação?
- 02O que eu sinto
Com a roda das emoções ao lado, para chegar à palavra exata.
- 03O que eu temo
O que eu temo que aconteça se nada mudar?
- 04O que seria isto dar certo
Dito em concreto, não em desejo.
- 05Uma imagem
Uma metáfora ou uma imagem que descreva como isto se sente. Sem explicar e sem justificar: escreve a que vier. É a pergunta que mais rápido tira alguém dos fatos.
- 06Que crença eu teria de mudar
Para conseguir o que eu quero, que coisa que dou como certa sobre dinheiro eu teria de soltar? Quase sempre é uma frase aprendida em casa.
- 07O que eu preciso hoje do grupo
Que me escutem, que me perguntem, ou que me contem a experiência delas. São três coisas diferentes e vale a pena pedir uma.
Se ao terminar a segunda folha você não ficar um pouco incomodada, ainda não chegou ao fundo.
Antes · a acompanhante
As duas sentam uma ou duas semanas antes, nunca no mesmo dia da sessão: o que se mexe precisa assentar. Uma hora sem interrupções, num lugar privado.
O trabalho dela não é resolver: é ajudá-la a chegar à dificuldade de fundo antes de contá-la diante de todas. E também não compartilha o dela: a preparação não é uma conversa entre duas, é uma escuta.
As quatro habilidades
1 · Mente tranquila
Não resolva. Só escute.
2 · Devolver
Repita o que ouve e o que percebe. Sem interpretar.
3 · Escutar por baixo
Onde está a dificuldade real, a que ela ainda não nomeou?
4 · Focar
De todas as dificuldades, qual é a mais forte hoje?
A frase que abre o grupo
É a peça mais importante do bloco inteiro, e a acompanhante a escreve ao terminar a preparação. É lida em voz alta na fase 4. O formato é fixo:
O formato
«Pense num momento em que você se sentiu [o sentimento mais forte dela] porque [uma descrição geral da situação, sem os detalhes dela].»
Sem nomes, sem valores, sem detalhes
Se a frase nomear o marido ou o empréstimo, o grupo vai contar histórias sobre maridos e empréstimos, e não sobre o que ela sente. É o erro mais fácil de cometer e o mais caro: perde-se o bloco inteiro e não há como recuperá-lo.
O teste: tire da frase tudo o que identifique o caso. Se ela continuar de pé sem isso, está bem escrita.
Durante · as cinco fases
- 01Ela conta
Sem interrupções. Ninguém pergunta, ninguém concorda em voz alta, ninguém completa as frases dela.
- 02Ela nomeia a dificuldade de fundo
Sozinha, em voz alta. O grupo espera. Muitas vezes não é a que ela trazia escrita.
- 03O círculo pergunta sobre essa dificuldade
Para entender, não para opinar. Uma pergunta que começa com «você não acha que…?» é conselho com ponto de interrogação.
- 04O círculo compartilha experiência
Aqui se lê a frase da acompanhante e cada uma conta a sua. Não o que ela deveria fazer.
- 05Ela diz o que leva
E acabou. Ninguém pergunta o que ela vai fazer. Nem naquele dia, nem no mês seguinte.
Se, com as perguntas, a dificuldade se revelar outra, ela diz isso antes da fase 4.
Essa última regra não é gentileza: é o que torna possível trazer um caso não resolvido. Se no fim é preciso se comprometer com algo, no mês que vem ninguém traz o que de verdade pesa.
Relevante ou ressonante
Na fase 4 compartilha-se o próprio, e há duas maneiras de isso servir:
As duas maneiras
Relevante
- Parece nos fatos.
- «Eu também tive de decidir sozinha sobre uma dívida da casa.»
Ressonante
- Parece no sentimento.
- «Comigo não foi isso, mas conheço bem essa sensação de sustentar algo que ninguém vê.»
O teste, e serve para as duas: se ao tirar a última frase a fala perde o sentido, essa última frase era o conselho.
As quatro falhas
O que quebra o bloco
As quatro
- MINIMIZAR — «Não é tão grave assim.»
- RESGATAR — «Eu resolvo isso pra você.»
- COMPETIR — «Isso não é nada perto do meu.»
- ACONSELHAR — «Você deveria…» A mais frequente, e a que entra mais rápido.
Como se usam
- São espelho próprio, para você se revisar.
- Não são ferramenta para corrigir as outras. Quem interrompe quando alguém as comete é a guardiã do acordo, com uma palavra: «acordo».
E quem não falou
Na fase 4 convém que a guia perceba quem não foi ouvida. Não para expor: num círculo de nove, duas mulheres levam metade do tempo e ninguém percebe até o terceiro mês.
De onde vem
O formato do caso vem do protocolo de fórum dos grupos entre pares. O seu núcleo — experiência, não conselho — é atribuído a «Jiggs» Davis e Fred Chaney, que em 1975 deram forma ao fórum da YPO em torno da ideia de substituir a confrontação por compartilhar experiência; a EO adotou isso em 1987, que é por onde a maioria conhece. As quatro falhas ecoam o no advice, no fixing, no saving de Parker J. Palmer, que por sua vez vem dos comitês de clareza quacres do século XVII — os quatro nomes são da MQHD. As cinco fases, as quatro habilidades e o formato da frase de abertura são a versão da MQHD, tal como estão na cartilha da participante.